DOMINGO II COMUM Ano C
“Toda a gente serve primeiro o vinho bom […].
Mas tu guardaste o vinho bom até agora.”
Jo 2, 10
O primeiro milagre de Jesus é um dos milagres que muitos gostariam de fazer. Mas transformar água em vinho bom e saboroso não nos permitiria apreciar o que a arte vinhateira, que, das cepas à vindima, das castas aos cascos, da tradição à modernidade faz dos vinhos os néctares deliciosos de que o nosso país também é pródigo. O milagre de Jesus em Caná tem mais a ver com a vida e a relação com Deus, com a transformação salvadora que Ele oferece, com a rotina e a festa, com a natureza e a graça.
Não é com um discurso ou um “comício” que Jesus inicia o seu ministério mas participando numa boda, a festa humana por excelência, que, na própria Bíblia, é a imagem que melhor exprime a comunhão de Deus com o seu povo. Quantos profetas descreveram o amor de Deus pela humanidade com a linguagem esponsal de uma festa de amor! Ultrapassando a profecia messiânica da “limpeza dos maus da sua eira”, Jesus não só participa da festa como provoca os “falsos puritanos” que teriam visto na falta de vinho um sinal de que já se teria bebido demais! Mas o importante é que este é “o vinho bom”, que alegra e enche de sentido a vida. A água em talhas de pedra da “religião dos puros”, que por mais que se lavem não são capazes de saborear o amor de Deus e o amor humano, é substituída pelo “vinho bom”, o Evangelho que traz plenitude a todas as festas humanas e oferece a graça transformadora que age no íntimo de cada um. Não, Jesus não deve ter dito um “sermão de casamento” nem fez uma exortação poética e teológica do amor; foi sinal mais do que palavra, como o será quando chegar a sua “hora”, e na cruz mostrar o que é “amar até ao fim”.
Numa “vida aguada” e num “vinho avinagrado” se prolongam, infelizmente, algumas relações e tantas existências. Onde o acomodamento e a rotina, o hábito e a dispersão, o acessório e a indiferença parecem ser intransponíveis. “Sem que um sonho, no erguer de asa, / Faça até mais rubra a brasa / Da lareira a abandonar!”, como diz Fernando Pessoa num poema da “Mensagem”. Na vida pessoal, familiar, e até nas comunidades cristãs, há uma sede do “vinho bom” que torna mais ditosa e plena a vida de todos. O milagre não se faz a partir do nada, mas daquilo que cada um já é e tem; com menos palavras e mais sinais de proximidade e amizade, com menos idealizações e mais amor à realidade, com menos egoísmo e mais cuidado mútuo! Assim no amor e a assim na evangelização: as palavras podem abrir caminho (e também criar grande obstáculos!) mas o que atrai e transforma são os gestos que dão corpo e vida às palavras! Na peregrinação que a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima começa a fazer pela Diocese de Lisboa seremos capazes de concretizar o seu pedido feito em Caná; “Fazei tudo o que Ele vos disser”?
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